Para Bernard Stiegler, "é preciso parar de consumir arte"

Diretor do Centro de Pesquisa e Inovação do Centre Pompidou fala do papel das novas tecnologias e critica leis de direitos autorais

GABRIELA LONGMAN

DE SÃO PAULO

Repensar as formas de produção e difusão de arte a partir das novas ferramentas tecnológicas e processos industriais é uma das preocupações centrais do filósofo francês Bernard Stiegler, 59.

Diretor do IRI (Instituto de Pesquisa e Inovação) do Centre Pompidou, Stiegler veio a São Paulo por menos de 24 horas, para uma conferência no Sesc Pinheiros.

Encontrou tempo, porém, para falar à Folha sobre como a proliferação de câmeras de vídeo, softwares de edição e difusão está restabelecendo uma relação de proximidade com o fazer artístico.

"Béla Bartók dizia que para bem ouvir música no rádio era necessário ler a partitura ao mesmo tempo. Hoje, soa como maluquice, mas em 1930 todo mundo sabia ler música. Aos poucos nos tornamos consumidores passivos de arte."

Segundo ele, é preciso voltar a estabelecer uma postura ativa para com a arte, uma relação "amorosa" no sentido forte da palavra.

"Penso que uma política cultural hoje em dia tem que ser antes de tudo uma política desse renascimento."

Professor do Goldsmiths College, em Londres, Stiegler oferece paralelamente um curso livre para os moradores do pequeno vilarejo de Epineuil-le-Fleuriel. As aulas são acompanhadas por 80 pessoas ao vivo e cerca de 10 mil pela internet.

"Uma pesquisa diz que 56% dos franceses detestam a TV que assistem. Então por que assistem? Porque não podem ficar sem. É um discurso de viciado. O consumismo destruiu as estruturas, a começar pela estrutura social. Consumimos porque não somos capazes de outra coisa. Precisamos refletir sobre a desintoxicação."

Enfaticamente, o filósofo criticou a lei de direito autoral em vigor na França.

"A França criou um órgão chamado Hadopi, que tem autoridade para incriminar os internautas que baixam conteúdo. Para mim é um modo de continuar a manter o privilégio das indústrias culturais do século 20 contra o novo modelo contributivo do século 21. Espero que no Brasil a ministra da Cultura não repita esse erro."

Stiegler começou a estudar filosofia durante os cinco anos que passou na prisão, nos anos 80, preso por um assalto. "A prisão é um laboratório filosófico. O mundo está suprimido, você só tem a memória dele. Tudo o que eu faço hoje em dia vem desse período, dessa situação filosófica radical."

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